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Sobre a praça

25 de março de 2010

Todo dia passo pela Praça Rosevelt, e lá ele está. Seu traje mais costumeiro era formado por uma bermuda jeans e um colete de couro marrom, já meio desgastado. Não importa a temperatura, a chuva, o vento. Sempre ao seu lado não estava um cachorro, mas uma garrafa térmica. Na mão esquerda um microfone preto, sem fio, desligado. Na mão direita um chimarrão cheio de mate, fumegante, do qual bebia grandes goles entre uma canção, ou um grito de bom dia e outro.

Entendam que, ao contrario da grande população de moradores de rua do centro, não mendigava, nem gritava palavras chulas. E era dono de tal energia pela manhã, que me fazia colocar o som do carro no mudo para escutar suas composições, improvisações, seus desejos de um bom dia desvairado que assustavam os transeuntes mais desavisados.

Um dia me sentei ao seu lado. No primeiro momento ele não disse nada, e continuou a afirmar no microfone a sua dificuldade de abrir fechos de sutiens. Depois, apenas observou o trânsito como quem olha através de mim. E então, olhou para o céu, e me contou como aquele azul o fazia voar, pra longe dali, um lugar mais suportável, com pessoas sem o medo arraigado em suas veias, que se tocavam com a humanidade de natureza extraordinária presente ao seu redor. Que não faziam distinção entre são e louco, entre pardo e louro.

Me contou que já havia feito dinheiro na vida, que já havia caminhado igualmente caminhavam os passantes da rua, as mulheres agarradas ás suas bolsas de grife duvidosa, se equilibrando em saltos esmagadores de ossos; os homens falando ao celular, com o peito aberto, não por que possuíam coragem, mas por que assim os ensinaram desde que eram meninos. Disse-me com os olhos lacrimejando que já o haviam ensinado a fazer escolhas desde muito cedo, entre fortuna e liberdade, entre responsabilidade, coerência e beleza. Já havia visto o amor tomar seu coração através de uma paixão ardente, e que nem mesmo a morte havia tirado isso dele.

Pela primeira vez, se virou para mim, observou meus olhos e disse: minha liberdade está contida nesse céu, nesse mate, nesse microfone, nessa minha loucura. Espero que um dia você encontre sua liberdade. Se isso realmente acontecer, poderá se sentar ao meu lado mais uma vez, e fitar o céu comigo.

Olhei para o céu, com as nuvens cinzentas de chuva. A mim dependia voltar para aquele lugar. E por mim, e como tinha certeza, eu voltaria.

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2 Comentários leave one →
  1. 25 de março de 2010 15:38

    Fantástico!

    • anega permalink*
      25 de março de 2010 20:54

      Obrigada Guilherme!

      Sinta-se a vontade! Apareça sempre que der vontade!

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