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Ser Mãe

14 de abril de 2010
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Conhecia muito bem aquela casa. Já havia esfregado, aspirado e arrumado muitas coisas naquela casa. Mas, naquele momento, tudo lhe parecia estranhamente novo e confuso. Sentou no sofá ao lado de sua antiga patroa, trocaram algumas palavras, meras formalidades, as duas sentindo o nervosismo uma da outra.

Um barulho na escada, e a menina desceu. Agora com 15 anos mostrava toda a beleza e esplendor da juventude. Suas unhas estavam limpas, e seu rosto não possuía mais as marcas de picadas de insetos de 10 anos atrás. Sua postura elegante vinha das aulas de balé, coisa que praticava 3 vezes por semana desde os 6 anos de idade. Abriu um sorriso educado a visitante humilde que parecia minúscula ali encolhida no meio do sofá de couro branco.

A visitante então soube que não fora reconhecida. E como podia se sentir tão próxima da menina? Lembrava de seus olhos suplicantes lhe pedindo comida no calor infernal que fazia dentro do ônibus sacolejando na estrada poeirenta pelo sertão. Pobreza. Pobreza por todos os lados. O corpinho da menina encardido semi-jazia em seus braços na rodoviária da cidade grande e cheia de oportunidades a sua volta. Mas não sabia ler, não sabia escrever… Deus, como alcançar as oportunidades?

Quando sua patroa, que a tempos tentava engravidar, se ofereceu para cuidar da menina enquanto ela tentava outra coisa na vida na cidade, não havia sido melhor? Os olhos quie a fitavam com curiosidade agora não tinham tanto brilho, tanta vivacidade…não pareciam tão felizes?
– Filha!….

O pensamento morreu em sua boca. Queria levantar e dar um abraço apertado, um abraço de 11 anos de idade na menina que agora tirava um belo som do piano. Levou a mão aos olhos tentando evitar as lágrimas que fatalmente escorriam pelo seu rosto. Olhou a ex-patroa com uma expressão agradecida. Tanta dor, pensou, tanta dor.
Levantou-se e foi embora, com a certeza de essa dor não deveria ser repassada a ninguém, muito menos a sua filha. Por 11 anos esteve ausente por tantos motivos difíceis. Seu amor de mãe era infinito, e guardaria esse momento pra sempre. Deixaria sua benção na forma da ignorância da menina.

Esse texto é baseado numa história real.

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2 Comentários leave one →
  1. Camila permalink
    26 de abril de 2010 15:08

    Ana (ou, mais adequado, Nega), é a Cá!
    Minha irmã comentou e eu vim ver…

    Essa Nega me dá tanto orgulho…

    Tá muito bom mesmo o blog!
    Parabéns aos dois!

    E adorei a mistura da Nega e do Japa!
    Só não resolvam dazer filhos, pois eles seriam estranhos…

    Beijos,
    Cá!

    • anega permalink*
      26 de abril de 2010 22:55

      Cá, mais do que ninguém sua opinião é importante!
      Aqui só entra japas e negros, ou seja, sinta-se a vontade quando quiser fazer uma participação especial por aqui!
      Bjos!

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