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A Baia

18 de outubro de 2010
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Foi há mais ou menos um mês. Tudo me parecia normal, cheguei, dei um bom dia educado aos meus colegas de trabalho, sentei na minha cadeira barata que parece ter sido projetada para destruir minha postura ao longo de anos e anos de uso, liguei meu computador, esperei a tela azul aparecer pedindo meu login, coloquei meu nome corporativo, a senha, esperei o que pareceu horas e fui abrir meu e-mail. Foi quando percebi que não conseguia mexer no meu mouse. Não havia espaço. À época me pareceu coisa pequena, afinal, de quanto espaço realmente precisa-se para mexer um mouse? 15 cm²? Na verdade eu não saberia dizer, sempre fui péssima em matemática. Daria um jeito, empurrei o monitor pra lá, o teclado pra cá, mas a verdade é que não entendia porque, de repente, num dia qualquer, não havia mais espaço para meu mouse. Observei a disposição das coisas na minha mesa, pois havia de ter sido a faxineira, lógico, devia ter finalmente pensando em passar um pano na minha mesa e desarrumado as coisas, mas não, tudo estava conforme eu sempre deixava – o que me pareceu mais lógico, já que nunca haviam passado um pano na minha mesa, digo, até tiravam o pó, mas limpar realmente, nunca. E tudo estava no lugar, minha pasta com o controle do cartão de crédito corporativo, meu files, meu bloco com papel de rascunho, meus dois porta-canetas, meu porta-clips, minhas fotos, meu mural com informações importantes, havia até colocado minha bolsa encostada no canto, junto às faturas a serem entregues no departamento financeiro. Pensei em comentar a situação com minha vizinha de baia, quando percebi que já não enxergava mais seus olhos, a altura da divisória devia ter aumentado um pouco também, pois bem, o telefone tocou e acabei não pensando mais nisso.

Até que algumas horas mais tarde, alguém que não me lembro pediu um file emprestado, eu emprestei, lógico, mas na hora que me devolveu, eu não consegui colocá-lo no lugar onde ele estava. Estranho. Tentei de todas maneiras socá-lo, espremê-lo e nada, parecia até que o lugar ficava menor a cada tentativa, me virei para reclamar com a menina do administrativo, mas acabei batendo minha cadeira na baia de trás que, por sorte estava vazia, olhei de novo para meu lugar, realmente não havia como negar, qualquer pessoa podia perceber que ela havia encolhido de tamanho, e as divisórias pareciam ter subido, era visível, procurei a supervisora mas ela não estava na sua mesa, o telefone tocou novamente. Mundo corporativo bom dia, olá cliente, tudo bem, sim, pois é, estou com seu e-mail aqui na tela, te enviarei em minuto, menos que isso, claro, entendo sua pressa, de maneira alguma, já estou te enviando, pode deixar, vou anexar a outra planilha também e uma apresentação em ppt, não, não He o menor problema, estou aqui para fazer o que for preciso, eu que agradeço, obrigada, beijos.

Desliguei o telefone, mulher chata do cacete, tinha uma voz de criança estridente, não conseguia deixar de sentir ondas de enjôo toda vez que falava com ela. Minha mão estava suada, estava abafado ali, estava sentindo até um pouco de tontura, quis levantar para ligar o ar condicionado, mas não consegui. Minhas pernas estavam presas no emaranhado de fios embaixo da minha mesa, que interligavam monitor, teclado, mouse e telefone, todos empilhados em cima da bancada que agora media ao todo uns 30 centímetros.  Tentei levantar os braços, mas eles estavam presos entre as duas divisórias da baia, que deviam medir agora uns 2 metros de altura. A luz fria da luminária me cegou quando olhei pra cima procurando por ajuda. Eu podia sentir o suor escorrendo pela minha testa, minhas mãos inchadas pela falta de circulação, meus pés sendo esmagados pela cpu do computador,  a bancada fazendo pressão no meu abdômen, meu deus, era isso, havia de morrer sufocada ali, meus olhos começaram a lacrimejar e minha boca estava seca, eu queria gritar, e gritei o mais alto que pude, mas ninguém parecia ouvir, ninguém conseguiria ouvir com aquelas paredes ao meu redor, e tudo ficou preto ao meu redor.

Me vi em pé no meio do escritório. Ainda estava suada.  Ainda gritava, quando percebi que todos olhavam para mim. Tentei lembrar o que havia acontecido, olhei pra minha baia, estava tudo normal, nada diferente. Peguei minha bolsa e corri, desci todos os andares de escada, não importava, havia de viver longe dalí, nem que fosse pra vender coco na praia.

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